Publicado no Jornal Construír Janeiro 2009
Com o certificado energético e da qualidade do ar interior, que a partir de agora acompanhará cada transacção imobiliária (tanto na compra de um imóvel como no seu arrendamento), os edifícios são, pela primeira vez, classificados em função das condições de saúde e conforto que oferecem às pessoas.
Por surpreendente que pareça, foi um gesto de coragem e de visão politica, reflectido à escala europeia na Directiva Europeia 2002/91/CE e à escala nacional nos DL 78, 79 e 80/2004 de 4 de Abril, que tornou disponível esta informação essencial para quem investe num imóvel.
O sistema nacional de certificação energética e da qualidade do ar interior reflecte o desempenho energético e ambiental de cada fracção autónoma de uma forma quantificada e, ao permitir a comparação entre o desempenho de fracções autónomas distintas, coloca esta informação importante nas mãos de quem tem o poder de escolha na compra ou no arrendamento de imóveis.
Existem, no entanto, muitas outras dimensões que são extremamente importantes para quem escolhe um imóvel, cuja quantificação ainda não está ao nosso alcance, em parte, porque são mais complexas e, em parte, porque são mais subjectivas.
Tanto a produtividade como o absentismo são duas dimensões que podem ser medidas mas ainda não foram incorporadas na informação à disposição do sector imobiliário. Se, no acto de escolha sobre um imóvel, tivéssemos ao nosso dispor também a informação sobre o nível de produtividade e sobre o grau de absentismo expectáveis, a nossa decisão poderia ir muito mais ao encontro das verdadeiras funções que cada espaço terá que desempenhar para nos satisfazer.
Enquanto estes indicadores não se encontrarem ao nosso dispor sempre que deles necessitamos, não conseguimos senão adivinhar a produtividade e o absentismo a partir de indicadores como o da saúde e do conforto, que determinaram a classificação atingida na certificação energética e da qualidade do ar interior dos edifícios.
Quando um espaço de trabalho é confortável e tem um grau elevado de qualidade do ar interior, é gerado um melhor ambiente para trabalhar.
Se for desconfortável, desencadeia no nosso corpo processos de compensação que se fazem sentir de forma diferente de pessoa para pessoa, uma vez que cada qual reage aos estímulos com um grau de sensibilidade distinta. As temperaturas na proximidade dos nossos órgãos centrais, variam apenas 2ºC durante toda a nossa vida – e este feito apenas pode ser conseguido através do accionamento contínuo de todos os mecanismos de compensação que fazem parte de nós. Por exemplo: quando sentimos calor funciona o mecanismo de transpiração – que, ao libertar humidade do corpo utilizando o calor para a fazer evaporar, contribui para baixar a temperatura à superfície da pele (uma vez que o processo de evaporação retira do ar a energia). Quando sentimos muito frio, ficamos a tremer e essa própria oscilação contribui para nos aquecer, também porque estimula a nossa circulação. Todos estes processos são instintivos, mas esgotam as nossas energias e distraem-nos, sobretudo quando estamos expostos a condições de desconforto constantes, por um lado, porque consomem a energia que armazenamos mas, por outro, porque se trata de “estados de alerta” que obrigam o nosso corpo a lutar pela própria sobrevivência. O facto de nos cansarem, torna-nos mais susceptíveis a doenças e, por consequência, ao absentismo enquanto o facto de nos distraírem nos torna menos capazes de nos concentrarmos no nosso trabalho e, consequentemente, menos produtivos no trabalho e em casa.
É uma expressão de respeito e de consideração e é sempre no interesse de qualquer empregador, oferecer aos seus trabalhadores as melhores condições de conforto energético-ambiental, porque é apenas nessas condições que a equipa consegue contribuir de uma maneira construtiva para os objectivos da empresa. Todos os estímulos são, sem qualquer dúvida, importantes, mas devem ser a consequência de um acto livre e não uma tirania que resulta do mau desempenho dos espaços que nos acolhem.
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